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Opinião de técnicos e colaboradores sobre questões do basquetebol brasileiro.
Personal oppinion of coaches and guests about basketball in Brazil.

O GIGANTE QUE CHORAVA
O gigante que chorava

Há cerca de dois anos tive a oportunidade de conversar com Hortência, a maior jogadora de basquete do Brasil em todos os tempos. Ela tinha deixado as quadras há algumas temporadas e uma das coisas que lhe perguntei foi se ainda praticava arremessos. A Rainha disse que não. Desde sua despedida, jamais havia voltado a se postar diante de uma cesta. Por quê? - quis saber eu. Por que abandonar o hábito que foi sua razão de viver por tantos anos? ''Porque se eu arremessar eu sei que vou acertar. Vou acertar muito. Vou acertar quase todas. E isso vai me dar uma comichão incontrolável de voltar a jogar'' - respondeu, com sabedoria, a grande estrela.
A certeza de que continuaria acertando fez com que Hortência se privasse de arremessar. Com o gigante Oscar Schmidt, que acaba de dizer adeus ao basquete, o efeito foi inverso. A certeza de que continuaria acertando fez com que ele se mantivesse na ativa. A regularidade de Oscar era tão impressionante, tão perene, que nos fazia imaginar que ele poderia continuar jogando até os 60 anos, se assim desejasse. Com o anúncio de sua retirada, Oscar baixou o pano de uma das mais impressionantes carreiras, em qualquer modalidade esportiva que se decida analisar. Uma carreira de 32 anos e quase 50 mil pontos. Uma carreira de glórias e recordes, daquele que foi o maior cestinha de todos os tempos e o máximo anotador da história dos Jogos Olímpicos. Como se isso não bastasse, mesmo na última temporada que disputou, o Mão Santa não concedeu a ninguém o gosto de terminar como o cestinha do campeonato.
De todos os recordes de Oscar, o mais impressionante é justamente este: tão longe quanto chega a minha memória, ele jamais deixou de ser o cestinha dos torneios que disputou. Assim foi quando ele iniciava a carreira, continuou assim no apogeu de seu jogo e assim permaneceu até a derradeira temporada. Imaginem se Michael Jordan tivesse sido o cestinha do atual campeonato da NBA, que também foi o seu último. Ou se Babe Ruth conseguisse o título de maior rebatedor justo em seu último ano na liga de beisebol. Agora imaginem se eles tivessem conseguido a façanha aos 45 anos de idade. Saber que Oscar foi o principal anotador do último torneio que disputou antes de se aposentar permite classificá-lo como um fora-de-série. Constatar que ele fez isso aos 45 anos de idade nos obriga a chamá-lo de legenda do esporte. Nenhum atleta, de qualquer modalidade, conseguiu jogar em alto nível e ser artilheiro quando se aproximava dos 50 anos de idade.
Nelson Rodrigues nos deixou há mais de 20 anos. No lado oposto, seus ''idiotas da objetividade'' parecem ser eternos - e certamente um deles se levantará para dizer que Oscar era fominha. Para vociferar que os seus títulos de cestinha eram conseqüência de seu individualismo exacerbado. Como se isso fosse crime para um atacante. A verdade é que em 30 anos não apareceu sequer outro fominha para lhe fazer frente. Oscar reinou sozinho por três décadas e cinco olimpíadas. Ninguém se aproximou de sua pontuação, façanha que conta com dois ingredientes: talento e dedicação. Talento, porque Oscar era mesmo o Mão Santa. Ninguém jamais arremessou com sua precisão, com sua regularidade, com seu destemor. Dedicação, porque, como ele mesmo disse, ninguém jamais treinou ou treinará tão duro quanto ele.
Não podemos nos esquecer também de seu coração. Um coração de gigante. Um gigante gentil, que não tinha vergonha de se debulhar em lágrimas quando a emoção falava mais alto. A despedida de Oscar deixa um vazio impreenchível no coração da torcida brasileira. Há quem diga que Michael Jordan, Kareen Abdul-Jabbar e Magic Johnson foram melhores porque jogaram no competitivo basquete americano. Pode ser. Mas vale lembrar que Oscar só não jogou ao lado deles porque não abriu mão de jogar pelo Brasil em troca de um milionário contrato profissional, quando tal fato impedia um atleta de disputar uma olimpíada. As propostas choviam, ainda mais depois da inesquecível façanha de Indianápolis-87. Mas ele preferiu jogar pelo seu país a gravar seu nome a ouro na história da NBA. Jordan, Jabbar e Jonhson raramente choravam - e se levados a escolher entre um bom contrato e defender as cores pátrias, certamente optariam pelos cobres. Oscar Schmidt era diferente. Ele era um gigante que chorava. E é por isso que o mundo nunca mais verá um jogador como ele.








Marcos Caetano- jornalista
marcos.caetano@corp.terralycos.com

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